Relato – Brevet 200 – Queluz – 22/03/14 – Roberto Trevisan

11 anos se passaram depois que o primeiro BRM no Brasil foi realizado. O primeiro brevet pedalado em 2003 foi exatamente o de Queluz. De lá pra cá muitas coisas aconteceram, quando falamos em Audax Randonneurs. Muito se aprendeu, com o passar dos anos. Aprendemos sobre a modalidade e suas peculiaridades. Aprendemos que a essência dessa modalidade é ser amadora e não competitiva.
Esse ano está completando 10 anos que pratico esta modalidade. Tive a oportunidade de participar de alguns brevets (acho que está na casa dos 70). Tenho a lembrança de todos eles. A sensação de concluir cada um deles é única. Quem pratica sabe o que estou falando.

Pois bem, vamos ao relato do BRM de Queluz, em São Paulo, organizado pelo Audax Randonneurs SP.

Já na vistoria eu encontrei amigos que fiz em agosto do ano passado, quando estive presente em um brevet 400km, ajudando na organização. Foi muito legal rever as pessoas e estar ali na linha de largada com elas.
Largamos as 7 da manhã na frente da Igreja. Depois de alguns metros de calçamento de paralelepípedo entramos no asfalto e já começaram as subidas de serra. Encontrei pelo caminho a Erica Alves e logo adiante o Zé Arnaldo Fabra Navarro. Passamos a andar juntos a maior parte do tempo. Dificilmente você anda todo o tempo junto em uma prova de longa distância, pois como cada um tem o seu ritmo, com o passar o tempo pode haver um distanciamento entre ciclistas. Mas nesse caso, passamos a perceber um ritmo semelhante entre os 3. A conversa começou e fez a coisa fluir. Entre uma paisagem e outra, um papo e outro, uma subida e descidas rápidas a prova foi se desenrolando.
Até que, em uma subida longa, senti um desconforto na posição do selim. Pensei eu, será que frouxou os parafusos? Bom vou parar para apertar. Desci da bike e percebi que meu canote estava quebrado. Sem chance de voltar a sentar no selim da bike.
Passei a tentar pedalar em pé no sentido de ir até o PC ou a algum lugarejo que pudesse resolver o problema. Pela informação do Zé, Bananal estava a uns 4 km. Era subida q não terminava e mesmo que tentasse pedalar em pé, eu não aguentei o esforço na mesma posição. Desci da bike. Pedi para a Érica e o Zé irem que dali em diante eu iria a pé até Bananal e pensaria se abandonaria a prova ou teria uma chance de resolver.
Após caminhar um bom trecho a pé, começou a descida e fui em pé na bike deixando ela embalar. Chegando em Bananal, estava o Zé Arnaldo me esperando e já informando que havia uma pequena oficina de bike. Fui até o local e perguntei ao dono da loja/oficina se ele teria um canote que servisse para a minha bike. Ele torceu o nariz e disse: “Acho difícil de ter”. Xi, pensei.. Mas la foi ele pra dentro da loja e volta segurando um canote preto. Este que serve e resolve o problema. Fiz os ajustes, próximos a medida que havia feito no bikefit dias atrás e volto para a prova.
Pedalamos até o PC 3, onde encontramos a Erica pois já estava mais adiantada.
Assim seguimos pedalando km a km.
A previsão do sábado, dia da prova, era de 100% de chance de chuva, mas o dia foi ensolarado até o final de tarde, quando pegamos uma chuva refrescante e abençoada, pois o trecho mais difícil eram os últimos 35km até Queluz.
Este brevet foi especial. Tive sensações que sinceramente, a tempo não sentia.
A primeira delas: a região. O lugar é lindo. rodeados de morros e paisagens inspiradoras. Aqui posso dizer, cada lugar tem seu brilho, mas não posso deixar de registrar a beleza por onde passamos.
Segundo: a dificuldade do trajeto. Já pedalei brevets cascudos e sempre citei alguns deles. Porém esse brevet definitivamente não é um brevet fácil de ser concluído. Pedalar um trajeto sem conhecer a região (como foi meu caso) é preciso técnica, pois do contrário você pode sofrer consequências e comprometer o desempenho para chegar ao final dentro do tempo limite. Isso aqui deixa claro que ciclista que busca desafio, estava no lugar certo.
Terceira e a mais importante sensação que tive: SEGURANÇA. A cada ano, me sinto mais preocupado com a segurança de praticar a modalidade. Venho me questionando os motivos e tentando achar solução. Infelizmente a única viável é procurar bons trajetos para a realização dos brevets. Em Queluz me parece ser um paraíso dos Randonneurs. Lá pude me sentir pedalando com segurança e passar a apreciar a paisagem a olhar a todo o tempo para o espelho retrovisor. Estradas adequadas, conservadas e condição boa (pouco transito) para pedalar no acostamento e onde não existia ele, sobre a pista próximo a faixa branca.
Gostaria de agradecer a Daniela, minha esposa, por me acompanhar nessa desafio. Dedico esse brevet a ela. Aos organizadores e apoiadores do Audax Randonneurs São Paulo, meu muito obrigado, pelo recepção que tive e hospitalidade de todos.
Pode contar que voltarei!

obs1: uso espelho retrovisor na bike. Não vi ninguém usando. Isso é uma constatação interessante.

obs2: tomar um xingão (xixi) do diretor de prova não tem preço. NO exato momento quando ele estava por perto, era uma descida (sem acostamento), onde vários ciclistas estavam juntos e inevitavelmente alguns ultrapassaram os outros, retratando um cenário de ciclistas pedalando lado a lado. Acertado foi ele de pedir para cuidar essa situação de risco. Obrigado pelo xixi Fabio!! 🙂

4 respostas em “Relato – Brevet 200 – Queluz – 22/03/14 – Roberto Trevisan

  1. Trevisan, relato perfeito, munido de emoções únicas vividas neste final de semana. Uma delas foi o prazer compartilhar momentos de confraternização com você e sua esposa após o pedal na Pousada Águas da Marambaia. Audax faz com emoção na minha vida e agradeço você por isto. Parabéns pelo seu trabalho em prol do ciclismo de longas distâncias. Vamos em frente. Abraçao.

    • oi Ronaldo! Eu que agradeço em conhecer pessoas como tu e sua esposa.
      Assim como foi pedalar esse brevet com muitos novos amigos que fiz no último sábado em Queluz. Até a próxima!

  2. Fiz meu primeiro Audax 200 km e a escolha não foi muito feliz…realmente se não tiver pernas, sangue, e autonomia de giro fica muito difícil em finalizar este Audax (Queluz), estrada de sobe e desce sem parar (serra), pensei em desistir na volta (depois de 100 km rodados), por duas vezes, logo na saída de Bananal quando acaba o “terrivel paralelepipedo” tem uma subida forte ali eu desisti, com apenas 200 metros de subida e pensei acabou….mas ai eu voltei e fui indo km/km mais adiante encontrei um ciclista também se esforçando para chegar ao posto 3 e ali eu estava desistindo novamente pois a minha frente estava pra vir muita chuva e sem muita perna ficaria mais difícil e perigoso, mas ao ver o companheiro empenhado em continuar fui no “vácuo” dele, veio a chuva e deu um certo vigor para seguir em frente, me distanciei do meu camarada de pedal pois estava descendo muito rápido, pois as speed tem maior autonomia de velocidade que a bike que meu amigo estava pedalando, e assim fui chegando e alcancei o posto 3 dentro do tempo de fechamento da prova. Mas o cansaço estava presente muito esforço pra pedalar na chuva e se equilibrar nas descidas com correntezas no asfalto. Então desisti no km 155 posto 3, entreguei meu passaporte, e tive a sensação de missão cumprida, pois dali até o final exigiria muito esforço físico e o diluvio da chuva esperado para todo o dia caiu naquele momento, decidi preservar a minha segurança, e integridade de outros que tentaram subir, eu poderia atrapalha-los por “quebrar” e eles por me ajudar, ficariam com tempo perdido de chegada. Sem abatimento aprendi uma lição muito valiosa pra se tornar um RANDONNEUR: RETORNAR NO ANO QUE VEM MAIS PREPARADO E FINALIZAR ESTE DESAFIO DE QUELUZ CASCA GROSSA. PARABÉNS A TODOS QUE REALIZARAM O PERCURSSO E A TODOS QUE SE EMPENHA E TRABALHAM PRA LEVAR O CICLISMO ACIMA DE DORES, TRAUMAS, E SENSAÇÕES DE COMPETIÇÃO.

    QUE VENHA 2015 (QUELUZ)
    RICARDO CARLOS ORTEGA

  3. Trevisan, meu amigo.
    Realmente este brevet é de “gente grande”.. rs rs
    E voce se mostrou gente “bem grande” ao encarar a “lomba” (em SP chamamos de subida rs), descer aquele ladeirão em pé na bike e não desistir.
    Isso tudo sem contar os muitos outros obstáculos deste trajeto.

    Muito obrigado pela companhia, pelos ensinamentos, pela sua experiencia, pelo incentivo e pelo dia abençoado.

    Que venham mais brevets destes!
    Tailwind
    Ze Arnaldo
    ps- um brevet de volantinho / coroinha rs rs

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