Relato – Brevet 300 (organizadores) – Boituva – 08/02/14 – Martin Montingelli

Conheci a modalidade Audax- Randonneur há mais ou menos 6 anos atrás, naquela época estava voltando a pegar o gosto pela bicicleta, tinha acabado de comprar uma Mountain Bike Caloi Elite 2.7. Minha primeira prova foi um Desafio 100 de Holambra, me lembro que vários outros amigos e amigas que estiveram lá conosco fizeram o 200. Neste dia, logo após o término da prova passamos a tarde na piscina, enquanto a galera estava no pedal.

Pra quem estava acostumado a pedalar na cidade, girar na estrada sem faróis e com o asfalto liso foi muito bom. Gostei tanto da estrada que acabei investindo numa bike melhor, uma Specialized Allez Elite toda 105, com ela tive o prazer de completar pelo menos 2 vezes a prova de 200 em Campos do Jordão e 4 vezes os 200 de Holambra.

Desde o primeiro brevet 200 me recordo que sempre tive dores nos joelhos,
a partir dos 150km ou o direito ou o esquerdo resolvia dar o ar da graça, às vezes os dois.
Após diagnosticar uma tendinite patelar o Dr. Ricardo Trigo, me recomendou alguns cuidados e fortalecimento. As dores sumiram durante os treinos mas sempre voltavam nos quilômetros finais das provas de 200. Achei que fazer os 300, 400 e 600 seria impossível. Tenho esperanças de um dia poder participar da prova mais desejada por todos desta modalidade, o Paris-Brest-Paris.

Depois de completar a primeira prova dos 200 do calendário 2014, coloquei como meta ir atrás de cada um dos breves ainda não conquistados. O plano era intensificar os treinos, fortalecer a musculatura, ficar de olho na alimentação e com certeza cortar o excesso de álcool dos happy hours. O resultado a gente percebe dia-a-dia, o fôlego aumenta, a disposição melhora, a garra pela conquista cresce e um orgulho da evolução chega como uma recompensa pela dedicação.

Uma prova de longa distância exige do ciclista não só o preparo físico e um equipamento de ponta, mas aprendi que é fundamental estar bem psicologicamente. Você aprende lidar com os seus medos, com a solidão na estrada, durante o dia, durante a noite, no frio, na chuva e no sol. Claro que você pode fazer a prova toda ao lado do seu melhor amigo, o que torna tudo mais agradável e divertido, mas é preciso estar preparado para enfrentar a solidão na estrada a qualquer momento.
O dia do brevet do organizador estava chegando, a prova oficial aconteceria em 15 de fevereiro em Boituva-SP e para nós no dia 8. Precisava realizar os últimos treinos e sentir o corpo. Intensifiquei a carga de subidas na USP, Aldeia da Serra, Romeiros, Interligação e demais pirambas espalhadas pela cidade de São Paulo. Aproveitei também para ganhar ritmo, treinando com a Route Bike aos finais de semana, me ajudou muito, recomendo.
Chegou o grande dia, encarar os 300, ou vai ou vai. Eu e o Fábio Guariglia largamos as 6 da manhã, ainda era noite, chegamos na Castelo Branco e antes dos 30km meu farol principal queimou. Segui com o dupla e mais uns 10km furou o pneu do Fábio, o sol já estava nascendo.
Normal, furar o pneu acontece, acho que só um brevet 200 passei ileso sem nenhum furo.
O farol me deixou preocupado, pois a previsão de chegada era meia noite e ficaríamos um longo período sem luz natural. O Fábio estava com um farol mais forte que o meu e na melhor das hipóteses iria na roda dele usando o meu pseudo farol reserva da cateye.

Partimos rumo ao PC1 num ritmo muito bom, e mesmo com mais um pneu furado conseguimos fazer uma média de 28,5 km/h. O sol já estava começando a castigar e junto o bom e velho vento contra. Pegamos a Serra próxima a Botucatu, com uma vista maravilhosa por sinal, e logo nos despedimos da Castelo Branco, rumo a Rod. Marechal Rondon. Sempre ouvi dizer que essa tal de Rondon era muito chata, logo percebi o porque, pensa num tobogã com o acostamento bem sujo, pronto, eis a Rondon.

Os 30km até chegar no PC2 foram os piores, o sol já estava fritando tudo por ali, o vento contra parecia diminuir mas não arredava pé, pensava a todo instante, vamos logo que eu quero pegar esse vento a favor na volta. Chegamos a parar num posto policial e fizemos amizade com o guarda que ficou besta ao saber que estávamos numa jornada de 300k, o cara foi muito gente fina, soube que iríamos voltar mais tarde e disse que ia preparar gelo para colocarmos na caramanhola na volta.

Chegamos fisicamente bem no PC2 apesar do calor infernal, até ali já havia tomado uns 5 litros de água e pra matar a saudade do dia da prova oficial, tomei uma garrafa de Gatorade pra ajudar na hidratação. Tomei também algumas cápsulas de Sal para evitar câimbras e repor logo o que perdi no caminho. Esperamos um pouco pra ver se alguma nuvem amenizava o sol senegalês mas não teve jeito, saímos com a lua na cabeça.
Durante a ida para o PC3 entre São Manuel e Botucatu, a 50km/h numa descida, do nada meu pneu de trás explodiu e por sorte não fui pro chão, consegui parar a bike no braço. Quando fui ver o que tinha feito o estrago, dei de cara com um objeto metálico gigante preso no pneu. Resultado: um pneu a menos. Por sorte o Fábio tinha um reserva e me emprestou, caso contrário, adeus brevet e todo preparo jogado no lixo, por conta de um pneu. E o pior, eu havia levado um reserva, mas ficou no hotel.

A partir dai o sol estava castigando e fomos obrigados a parar algumas vezes, até que depois de algumas sombras de placas de estrada, chegamos novamente no posto policial e pra nossa sorte o cara tinha mesmo feito bastante gelo pra gente. Filamos mais água gelada, um banho de torneira e bike na estrada. Nunca rezei tanto para chegar na Castelo de novo, o Marechal que me perdoe, mas definitivamente, odeio a Rondon. Logo nossas preces foram atendidas, quando avistamos a placa – Castelo branco a 500mts – logo fez-se a luz. Pegamos no ritmo e chegamos no RodoStar novamente, mais um banho, comida, café, e energético para espantar o sono, pois a noite estava chegando junto com uma chuva lá fora.
Estrada de noite com chuva, e sem um farol, vamos lá. Partimos pra Boituva ainda com uma garoa leve, suficiente para refrescar o que o Sol castigou durante o dia todo. A noite com o clima mais ameno e já no tapete da Castelo a prova ganhou um novo fôlego, pegamos um ritmo bom, o vento que antes era contra resolveu nos ajudar e era só uma questão de tempo para completarmos a prova. O corpo estava perfeito, a cabeça estava ótima e a bike parceira como sempre. Quando faltavam apenas 20km, já eram 11:30 da noite e um sono começou a bater forte no Fábio, paramos por 10 minutos no pedágio para um cochilo e mais adiante ao passar num ponto de ônibus paramos novamente. Foi nesse ponto que eu recebi a melhor notícia da prova, minha namorada que estava participando do El Cruce entre o Chile e Argentina conseguiu mandar notícias que havia chegado bem e que estava viva, já no hotel. Enquanto o Fábio dormia tive o prazer de falar com ela por alguns instantes pelo whatsapp e ficar mais tranquilo.
Tirar uma preocupação da cabeça durante uma prova dessas ajuda muito, já estava tarde e não aguentava mais ficar em cima da bike, quanto antes chegasse melhor. Me lembro do Rogério falando pelo whatsapp sobre a última subida do km 122, e foi só falar e ela chegou. Mas amigo, depois de tanta subida como a Serra de Botucatu, e tantas outras durante a prova, essa última do 122 subi como se fosse uma reta, ignorei.

Depois dos 295 km pedalados me lembro de avistar uma placa escrito, Boituva 5km, ler isso conforta tanto quanto um colo de mãe. Já eram quase 1 da manhã e eu só estava pensando na conquista, meu primeiro Brevet 300. Nos últimos km vai passando um filme na cabeça, você já vai reconhecendo o local onde toda essa loucura começou o sorriso no rosto já começa a aparecer e junto vem a sensação de que tudo valeu a pena.

Que venham os 400! Bom pedal a todos!
Martin Montingelli

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6 respostas em “Relato – Brevet 300 (organizadores) – Boituva – 08/02/14 – Martin Montingelli

  1. Parabéns! Lembro da sensação de terminar meu primeiro brevet 300! É bom demais! E a sensação continua boa no segundo ou terceiro… Heheh he Espero que faça a série toda mais um mil esse ano e esteja no PBP conosco ano que vem.

  2. Excelente relato Martin! Quem pedala o Audax se identifica com sua postagem! Nunca havia pensado em levar um pneu reserva, mas vou começar fazer isto… melhor levar mais uns gramas com um pneu reserva do que ficar na mão e ver o brevet ir para o espaço em um inesperado como este. Força no pedal!

  3. Parabéns pelo relato, esses relatos ajudam muito quem vai pedalar o brevet como eu irei, valeu e parabéns.

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