Relato – PBP – Paris Brest Paris 2011 – Richard Dunner

Sai mordido do meu DNF (Did Not Finish) no PBP 2007. Tinha completado 1.000 km, recorde para mim, e fui dormir. Mas não fiquei satisfeito.
Depois de alguns meses no Brasil voltei a participar das provas do Audax em São Paulo e não pensei mais no assunto. Percebi que tinha que ser mais rápido nas provas e comecei a tentar aumentar a minha média.
Tanto em 2008, quanto em 2009 e 2010 completei as provas dos 200 aos 400 km. Mas sempre que chegava à prova dos 600 achava alguma razão para não terminar. Achava uma prova chata, onde tinha que decidir se dormia ou não. No final desistia. Faltava-me foco, alguma meta maior.
Finalmente em 2010 tive que decidir se queria ir para PBP 2011 e o melhor motivo que achei foi de provar para mim mesmo que conseguia, e bem. Isto é, terminar dentro do tempo e bem de saúde.
Assim fui divulgando a partir da segunda metade de 2010 que queria ir a Paris e comecei a me preparar para o desafio.
Fui participando de todos os breves de São Paulo, dos 200 até os 400 como voluntário e participante. Em todas as provas me colocava metas e a partir do brevet 300 fiquei acompanhado por ciclistas mais experientes e velozes com os quais fiquei incentivado a usar estratégias bem definidas.
Já tendo feito a pré-inscrição para PBP em Abril de 2011, tive que pedalar os 600km de Holambra, em junho, para me qualificar definitivamente.
Coloquei como meta terminar em 35 horas. Durante a prova acabaram me acompanhando Ze Arnaldo, Silas e Rafael. No final Silas e eu brevetamos os 600 km em 37 horas e Rafael em 38 horas, tendo furado pneu no grupo um total de 7 vezes. Sempre todos parando para ajudar. Só Ze Arnaldo desistiu com tendinite em um joelho e hipotermia.
Preparei uma planilha com o resultado do brevet 600 e mais uma do PBP 2007 com o meu resultado efetivo, com os tempos pedalados, velocidades e os tempos de parada. Aproveitei para analisar onde dava para ser mais rápido e poupar tempo.
Finalmente fiz a minha inscrição para PBP 2011 na categoria 84 horas depois de ter visto o programa de 2011 onde a categoria mencionada largava por último, com um menor número de participantes. Isto me lembrando da minha experiência de 2007 na categoria 90 horas com 5 horas esperando a largada na chuva. Teria uma noite a mais para dormir e durante a prova a oportunidade de passar sem filas pelos registros e serviços dos PCs, aproveitando muito melhor o tempo parado. Considerei que pouparia pelo menos umas 3 horas nos PCs comparado com 2007. Preparei uma planilha com a meta de terminar em 80 horas, incluindo 15 horas de descanso.
Viajei para a Suíça em 14 de agosto e a partir de 15 de agosto fiquei na casa dos meus pais em Branges, Borgonha. Aproveitei para montar a minha bicicleta e testar as novas rodas Fulcrum Zero. Sabendo que a loja conhecidíssima de Guilles Berthoud fica em Pont de Vaux, a 40 km da casa dos meus pais, fui visitar a loja pedalando. Para o meu azar estava fechada, em férias coletivas até o 24 de agosto. Pelo que depois soube, fechar em agosto, época de férias, é prática comum na França. Desapontado pedalei de volta para Branges.
No dia 19 de manhã (aniversário da minha mãe) fui para Paris, para o hotel Les Gatines em Plaisir. Cheguei ao hotel no começo da tarde, deixei a bagagem no quarto e fui almoçar.
No decorrer da tarde começaram a aparecer os brasileiros, quase todos com preparativos a fazer. Assim acabamos indo no dia 20, junto com a equipe de Milton Della Giustina, para Monde-Velo em Maurepas, uma bicicletaria enorme, muito diversificada e, ainda no mesmo dia, para o Decathlon em Plaisir.
Também no dia 20, Silas, Rafael, Valdson e eu fomos para a largada para conhecer o caminho. Rafael e eu acabamos fazendo a vistoria da bicicleta adiantada, pegando os kits da prova. Silas, porque faltava a luz e o colete, acabou fazendo tudo no dia 21. Ainda no dia 20, final da tarde no hotel, ficamos preparando a bicicleta dele com quadro novo para a vistoria. Rafael também acabou fazendo mudanças, trocando a mesa da bicicleta para o guidão ficar mais alto.
Na noite antes da largada decidimos jantar cedo e ir cedo para cama já que teríamos que levantar as 3h15min da manhã para depois pedalar até a largada, que ficava a 10km do hotel.
Acabei dormindo muito mal, mas me forcei a ficar deitado para pelo menos descansar. Levantei no horário, tomei café de manhã e me encontrei com Silas, Rafael, e um grupo de canadenses para pedalar para a largada, onde chegamos depois de 30 minutos. Na largada encontramos também com Ivan.

No dia da largada, dia 22 (meu aniversario), às 5h20min estava chovendo. Não achei um bom presente de São Pedro. Colocamos a capa de chuva, a cobertura de sapatilha e largamos no horário. A saída da cidade no pelotão foi uma sanfona, andávamos e freávamos. Precisamos ficar muito atentos.
Amanheceu, parou a chuva mas estava fresco, pedalava junto com Silas e Rafael. Isto até que Silas pegou um grupo um pouco mais rápido, depois de uns 70 km, que estava andando a uns 30km/h. Achei muito rápido e fiquei para trás junto com Rafael. Depois de uns 85 km paramos em um vilarejo onde estava aberto um bar, bebemos um café com leite bem quente, enchemos as caramanholas de água e continuamos para o posto de abastecimento em Montagne au Perche, km 140. Um pouco antes de chegar Rafael ficou um pouco para trás e fora de vista.
Como já aconteceu em 2007, em qualquer lugar, vilarejo ou casa onde tivesse alguém, nos incentivavam com “Bon Courage”. Todo mundo torcia pelos ciclistas. Tinha também frequentemente as barraquinhas organizadas por familias e amigos do pedal oferecendo comida e bebida gratis.
Cheguei a Montagne au Perche por volta das 11 horas, mais de uma hora mais cedo do que planejado. Encontrei com Silas que tinha chegado uns 15 minutos antes. Ai chegou Ivan, avisando que o cambio traseiro de Rafael tinha quebrado uns 9 km atrás e que ele vinha a pé. Imediatamente fui falar com o atendimento mecânico que me falou que tinha como atendê-lo, mas que ele tinha que chegar até a oficina.
Com isto Silas e eu, depois de abastecer, esperamos um pouco na esperança de ver Rafael chegar, o que não aconteceu. Assumimos que o atendimento mecânico consertaria a bicicleta e ele continuaria um pouco mais tarde, dentro do horário, já que os 3 estávamos bem de tempo. Assim, largamos para Villaines la Juhel, o primeiro PC.
Imprimimos um bom ritmo, o relevo ajudava, e chegamos a Villaines la Juhel, km 222, por volta das 15 horas, bem antes do planejado. Começamos nossa rotina habitual de todos os PCs, carimbar o passaporte, comer, encher as caramanholas e ir ao banheiro para colocar chamois. Depois de 50 minutos largamos para o próximo PC, Fougères.
Eu já tinha tirado a capa de chuva mas depois de uns 10 km houve uma verdadeira tempestade, chovendo aos mares. Paramos para colocar outra vez a capa de chuva e continuamos. Falei para Silas: “Exatamente assim chovia em 2007, mas era de noite. Espero que pare!”
Continuou chovendo o caminho todo, mas menos forte e acabamos chegando a Fougères, km 310, bem na frente de nosso planejamento. Como nos PCs anteriores, havia poucos ciclistas e passamos por nossa rotina sem filas, estava dando tudo certo.
Paramos um pouco mais de uma hora no PC. Sabendo que a próxima etapa para Tinteniac era curta com 54 km, largamos tentando fazer a maior distancia possível ainda de dia. Nesta etapa mais plana avançamos bem chegando a Tinteniac às 23h18min, com uma média de 23 km/h. Paramos o mínimo para continuar para Loudeac, onde decidimos dormir.
Os últimos km antes de Loudeac eram bastante montanhosos e estando cansados ficamos felizes de chegar bem às 4h30min da manhã. Depois da rotina, fomos tomar banho, trocamos de roupa e fomos dormir. Na roda traseira do Silas quebrou um raio e, de manhã durante o café da manhã, Silas deixou a bicicleta no mecânico. Ficou tudo pronto uns minutos depois do café.
Largamos para Carhaix-Plouger um pouco antes das 8 horas da manhã, meia hora antes do fechamento do PC. Na primeira fase desta etapa, até St. Nicolas de Pelem tinha muitas subidas íngremes e ficamos felizes de fazê-las de dia, onde ficamos subindo na menor marcha possível (34×28). Em St. Nicolas paramos rapidamente para nos abastecer para o resto da etapa. Depois continuamos, a rota com relevo um pouco mais plano, e acabamos em um grupo com um francês, um inglês e um americano. O inglês foi na frente imprimindo um ritmo forte, marretando. Assim em certo momento, fui para frente e pedi para ele girar mais, e pedalar com mais “souplesse” porque todos queríamos chegar inteiros. Todos se alternaram cortando o vento, inclusive o francês, de forma muito generosa, até chegarmos a Carhaix um pouco depois do meio dia.
No PC, depois de nossa rotina, saímos imediatamente em direção a Brest. Na primeira fase desta etapa subimos a subida mais longa do PBP de um pouco mais de 4 km, até o ponto mais alto Roc Trevezel, onde paramos para abastecer e nos vestir bem para a descida até Sizun, uma cidade histórica. Nesta subida, e na descida subseqüente, cruzamos com uma grande quantidade de ciclistas da categoria 90 horas voltando para Paris. O tempo continuava fresco e chegou a garoar na descida. Empolguei-me e, vendo que um jovem não conseguia acelerar na descida para alcançar o seu grupo, acabei dando uma mão ajudando a cortar o vento por uns 5 km a velocidades acima de 40 km/h, estimativa sem Cateye, porque parou de funcionar na chuva. O jovem agradeceu e foi em frente. Passando Sizun apareceu o sol e pegamos uma parte plana com vento contra até a descida para a ponte estaiada em Brest. Na ponte parei e esperei o Silas, fizemos uma foto, desfrutamos a paisagem e continuamos pela cidade ate chegar no PC.
No PC, a rotina, e Silas sumiu. Como depois me contou foi tomar um banho; estava cansado e sentindo um pouco o estômago. Eu estava sentindo um pouco o meu joelho esquerdo, que parecia dolorido, com tendência a piorar. Mas de qualquer forma depois de uma hora começamos o nosso retorno para Paris. Partimos tentando fazer a maior distancia possível ainda de dia. Passando Sizun, começou a subida de Roc Trevezel onde sentia bastante o meu joelho e comecei a ficar bravo porque não sabia a razão da dor. Pela primeira e única vez pensei: “Isto não vai me estragar a prova?”
Mas imediatamente depois comecei a pedalar mais forte na subida até o topo, para tentar esquecer o assunto.
No topo do morro, Roc Trevezel, ao lado da enorme antena de radio e tv parei em um grupo de franceses oferecendo café e biscoitos. Eram muito amáveis, curiosos, fazendo perguntas e tentando ajudar. Fiquei tomando café, batendo papo e comendo biscoitos ate Silas aparecer, que tinha subido um pouco mais devagar. Silas também parou para um cafezinho, e depois de agradecer a companhia e boa vontade, continuamos o nosso caminho.
Ainda antes de Carhaix Plouger levamos um bom susto. Quase dormimos em cima da bicicleta. De repente, sem aviso, um lapso, acordei na beira da estrada, indo para o mato. Consertei no último momento. Estava frio para parar e continuamos os últimos km ate o PC batendo papo. Decidimos dormir um pouco no PC, onde chegamos por volta das 23 horas.
No PC, depois de carimbar o passaporte, fui diretamente para a enfermaria para verificar a historia do meu joelho. Foi diagnosticada uma tendinite, me fizeram uma massagem no joelho e colocaram Arnica, que Silas por sorte tinha no alforje. O enfermeiro me pediu para verificar no próximo PC em Loudeac se tinha inchado. Fomos dormir 30 minutos no dormitorio do PC e pedimos para sermos acordados.
No caminho para Loudeac nos encontramos com Andréa Malafaia e mais um brasileiro, com quem Silas bateu um curto papo. Estavam muito atrasados. Fomos em frente e alcançamos 2 americanos pedalando em um bom ritmo. Conheciam bem o percurso, o que ajudava bem de noite. Ficamos juntos até o dormitório de St. Nicolas onde paramos para tomar uma sopa. Assim, chegamos bem em Loudeac, onde fomos dormir uma hora e meia.
Largamos 30 minutos depois do fechamento do PC, mas descansados e sabendo que tínhamos tempo suficiente para chegar a tempo no próximo PC. Este trecho de percurso era mais plano.
No caminho, passamos por um PC secreto, em Illifaut, onde tivemos que parar e aproveitamos para abastecer. Achamos um canadense vizinho de hotel, Ross Nichol, com o inglês marreteiro. Convidaram para irmos juntos, mas nos não estávamos prontos. Um pouco mais tarde estávamos a caminho.
Continuando, alcancei um grupo de 3 suíços. Fiquei por último e comecei a observar como estavam organizados. Dava para ver, que dois deles eram mais novatos, mas o terceiro parecia um ex-profissional. A movimentação parecia lenta. Nas subidas longas, ou íngremes, imediatamente os mais fracos colocavam a menor marcha e subiam pacientemente o morro, girando. O mais experiente, nem trocava de marcha, levantava do selim e subia, aparentemente sem qualquer esforço. Pelo final das subidas sempre ficava um pouco na frente dos outros, mas esperava pacientemente o reagrupamento. Chegava a reta e a velocidade aumentava consideravelmente, os três alternando-se para cortar o vento. Olhando para o relógio percebi que estavam avançando a uns 23 a 24 km/h. Não parecia rápido, mas era depois de mais de 800 km.
Acompanhei o grupo uns 10 km. Depois, no topo de uma subida, agradeci em suíço, dei os parabéns, dizendo que foi muito bonito ver o seu trabalho em grupo, uma verdadeira aula, e fui embora porque eu era um pouco mais rápido. Não voltei a vê-los.
Chegando a Tintentiac, fui para a enfermaria para cuidar do meu joelho. Os enfermeiros souberam imediatamente, pelas anotações no meu passaporte, o que tinha sido feito na enfermaria no PC anterior. Deitaram-me, verificaram, fizeram uma massagem nas duas pernas, apareceu o médico confirmando a tendinite mas que estava tudo bem, que podia continuar. Rindo, ele me falou que não seria este o motivo para eu não chegar a Paris.
Assim, abordamos a próxima etapa para Fougères, a mais curta da rota. Fougères é uma cidade histórica encima de um morro, com um enorme castelo. Chegamos por volta das 15 horas da tarde com tempo bom e vento, que agitava bem as bandeiras coloridas nas torres deixando o visual muito pitoresco. Naturalmente a chegada ao PC era uma subida. Fizemos uma parada curta para tentar terminar a próxima etapa montanhosa, etapa de Villaine la Juhel, ainda de dia.
Na primeira parte da etapa Silas e eu continuamos juntos, mas quando começaram a aparecer os morros ele ficou um pouco para trás. Sobre tudo no final da etapa, tem algumas subidas um pouco mais longas e cansativas onde somente a paciência e a menor marcha contam. Acabei parando uns 25 km antes de Villaines, em Chantrigne, onde uma mãe com a ajuda dos seus filhos estava dando comida e bebida de graça. Na parada, fiquei batendo papo com um jovem alemão, da categoria 90 horas, que estava todo assado e não sabia que era bom colocar chamois. Ofereci o meu pote mas ele não quis. Parece que em todos os lugares existem problemas de informação. Despedi-me e encarei as últimas subidas para Villaine la Juhel, onde cheguei as 8h30min da noite.
Planejando os últimos 220 km e a noite aproximando-se, pensei em dormir. Mas primeiro fui para a enfermaria onde encontrei com Eric Brack. Durante a massagem do meu joelho, batemos um papo, parecia ter perdido bastante tempo em Villaines la Juhel. Não tinha se adaptado bem à bicicleta emprestada por Jorge, e parecia-me confuso. Encontrei-o outra vez no jantar, onde sentamos juntos, trocamos poucas palavras, estavamos cansados.
Eric acabou ficando no refeitorio enquanto fui buscar o Silas. Na saída do refeitório o encontrei. Ele tinha chegado um pouco mais tarde. Me falou que fosse em frente, que a partir de agora iria um pouco mais devagar. Despedi-me sabendo que com o tempo de reserva ele teria uma boa chance de chegar dentro das 84 horas. Fui para o dormitorio do PC pedindo para me acordarem às 22h30min.
Alias, ainda não entendo como tendo dormitorios em todos os PCs, tem ciclistas dormindo no meio das etapas, nos bancos dos parques, na parada de ônibus, etc., quando poderiam dormir quentinhos embaixo do cobertor no dormitório a disposição, com serviço de despertador.
Descansado voltei para a estrada, direção Montagne au Perche, com o vento nas costas. Depois de uns 20 km e alguns sobes e desces cheguei ao lugar de um acidente. Já estavam ai duas ambulâncias e tinham pelo menos 3 ciclistas estendidos em macas no chão. Perguntei como estavam as coisas e me falaram que tudo sob controle, que continuasse. Uns km mais tarde vi uma terceira ambulância indo na direção ao acidente.
Apareceu um pouco de neblina e concentrei-me na estrada. Os km foram passando, a neblina sumiu e percebi um grupo de luzes vermelhas cada vez mais perto e um som cada vez mais forte de “whom”, “whom”. Pareciam monstros extraterrestres enormes movimentando-se na escuridão, ate que percebi que eram as usinas eólicas, que já tinha passado na ida. Passei a encontrar-me com muitos ciclistas espalhados na minha frente, que fui passando, um a um. Estava definitivamente no meio da categoria 90 horas. Encostei em uma reclinada e imprimimos um ritmo forte nos alternando para cortar o vento durante km e km, ate que em uma subida deixei ele para atrás.
No meio da etapa, em plena madrugada, parei em um vilarejo com um supermercado aberto e comprei uma baguete com presunto, que devorei na hora. Tinha dentro do supermercado um participante francês que quase não conseguia mover um ombro. Parecia que tinha uma tendinite e estava procurando algum remédio. Ai fui ate a bicicleta, peguei a Arnica e a dona do supermercado fez uma massagem para ele. O problema não era somente a tendinite. Tinha também as mãos adormecidas, sem força. Não obstante, quando fui embora, ele já tinha ido em frente. Não voltei a encontrá-lo. Espero que tenha chegado bem. Chegando a Montagne au Perche, para minha surpresa, encontrei na mesma mesa o Rafael Dias, a equipe Della Giustina, Guilherme Kardel, Jorge Luiz Rovetto, Simone Barbisan e Alexander Kohler Gomes. Estavam indo embora quando sentei para comer na mesma mesa e me convidaram para ir junto. A minha resposta foi que ia dormir antes. Estava tranqüilo, dentro do tempo, e meu programa de recuperação tinha funcionado. Não tinha porque mudar.
Despertaram-me no dormitório as 04h30min. Levantei e fui para a etapa. Fazia frio. Estava com as roupas certas mas os primeiros kms eram de descida. Eu e a minha bicicleta tremíamos juntos. Pela primeira vez durante a prova pedi uma subida. “Esqueça, vamos em frente!”. Ficou mais plano o percurso, outra vez com vento me empurrando. Ao amanecer ainda parei em um vilarejo onde comi uma baguete com presunto, na frente de uma padaria batendo papo com um francês. Cheguei em Dreux atrás de um pelotão de pelo menos 30 ciclistas.
Dreux estava cheia de ciclistas. Mas não teve fila. Comi um farto café de manhã e fui embora para desfrutar da última etapa. Saiu o sol e de repente aparece Guilherme Kardel, me alcançando. Pensava que já estaria chegando a Paris. Pedalamos juntos uns kms, trocando algumas palavras, até eu decidir parar e tirar o corta vento. Kardel foi embora e passaram 2 franceses incentivando-me a pedalar. Guardei as roupas nos alforjes e voltei a pedalar.
Apareceu uma subida íngreme, coloquei na menor marcha, mas acho que subia mais de 10 %, subiu o pulso e a respiração. Depois vinha uma reta, e mais uma nova subida tão íngreme quanto à primeira com curva a esquerda. Não dava para ver o fim. Decidi pedalar devagar na curta reta para recuperar, e depois enfrentar com toda força a subida saindo do selim. Sai do selim, peguei a subida na curva, mas ainda não dava para ver o fim. Começaram a queimar as pernas, continuei forçando, e quase quando estava com a língua no chão apareceu o final da subida.
Para minha surpresa no topo tinha um monte de torcedores aplaudindo, todos embaixo da sombra das arvores ao lado da estrada. Parecia que tinha subido um passo do Tour de France. Pensei: “Sem vergonhas, queriam me ver subir a pé!” Soube depois que estas duas “subidinhas” são as mais íngremes de todo o percurso.
Mais alguns kms para frente alcancei Lazary, que dava para reconhecer a 100 m devido a bicicleta e a roupa, cumprimentei e perguntei se estava tudo bem. Ele falou que fosse em frente, que via que eu estava mais veloz. Despedi-me e fui em frente. Chegando aos subúrbios de Paris começaram os semáforos, e a cada semáforo, tinha mais ciclistas, das mais diversas nacionalidades, agrupando-se. Outra vez apareceu Kardel, e finalmente chegamos juntos no corredor de entrada para o ginásio Droit dês Hommes, em Guyancourt, onde o público torcia e aplaudia a cada ciclista que chegava. Um jovem austríaco também chegou junto e todo mundo parabenizava a todo mundo, conhecido ou desconhecido. Entrando no ginásio, depois de carimbar o passaporte, encontrei com Rafael Dias, a filha do Milton Della Giustina, Rafaella, e Lidiane Lauermann. Tendo completado ou não, todo mundo estava com saúde e OK.
Estava muito quente dentro do ginásio e quis sair dali o mais rápido possível. Assim, Rafael e eu voltamos de bicicleta para o hotel batendo papo. Ai ele me contou toda a historia do primeiro câmbio quebrado, do segundo câmbio quebrado e da caminhada a pé… Bom, as vezes é melhor esquecer. Almoçamos no restaurante italiano ao lado do hotel e depois de um bom banho fui dormir.
Olhando para a prova e o resultado, 78h32min, com mais de 21 horas parado, incluindo aproximadamente 6 horas dormindo e pelo menos 12 refeições quentes nos PCs, posso dizer que o planejamento funcionou. Este tipo de prova não é somente esforço físico, é uma questão de logística, mantendo a cabeça bem no lugar. Nas planilhas anexas dá para analisar melhor o resultado.


Como sempre falo: Podemos ser audaciosos, mas não precisamos ser aventureiros.
Imprevistos em uma prova tão longa sempre tem, mas a sorte esteve de nosso lado. O tempo, apesar da chuva no primeiro dia, ajudou com vento a favor quase toda a volta para Paris. Não tivemos nenhum pneu furado, somente uma falha mecânica, a roda do Silas que pôde ser concertada, e o meu joelho com tendinite agüentou.
Parabéns ao Silas, que também completou a prova em 82h28min, e parabéns a todos os brasileiros, tenham completado ou não. E não posso esquecer do Rafael: “Você e jovem! Tem uma próxima!”.
Muito obrigado a Ciclo Ravena que me apoiou para preparar a bicicleta e me emprestou o mala bike Thule para poder transportar a minha bicicleta de forma segura.
Obrigado a todos pelos e-mails e pela torcida, e especialmente ao Silas, forte e paciente companheiro durante a maior parte do percurso.

Abraços a todos e bom pedal,

Richard

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3 respostas em “Relato – PBP – Paris Brest Paris 2011 – Richard Dunner

  1. Grande Richard, parabéns pela prova e desafio cumprido. Nos conhecemos no último AUDAX, sou amigo do Zé Arnaldo…
    Seu relato serve de inspiração para aqueles que como eu estão iniciando nessa vida “audaxiana”.
    Abraços

  2. Richard, boa noite.
    Gostaria de conversar com você por telefone.
    Tenho algumas questões a levantar.
    Grato,
    Rogério.

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