Relato – PBP – Paris Brest Paris 2015 – Richard Dünner

Relato PBP 2015

Esta vez não sei bem por onde começar. Muitos pensamentos e muitos detalhes me deixaram um pouco confuso.

Em 2014 decidi enfrentar o PBP mais uma vez, isto apesar de ter problemas menores de saúde, que me atrapalharam bem meu treino. Assim, em 2014 somente fiz uns 6400 km de treino sendo constantemente interrompido com as minhas idas ao médico. Tive a queda na fleche na páscoa e o meu joelho esquerdo demorou uns 2 meses para se recuperar, isto depois de antibióticos e uma punção. Com isto, também o Randonneur 5000 ficou longe.

Os resultados nos brevets em 2014 também não foram grande coisa. Fiquei um pouco desmotivado, e acabei não completando o Super Randonneur e não participando do primeiro 1000 no estado de São Paulo.

Mas tendo decidido participar no PBP 2015, acabei montando um plano para 2015, começando com a reserva de quartos no mesmo hotel de 2007 e 2011, Hotel Pavillon dês Gatines em Plaisir. Tendo assumido este compromisso e olhando para o programa de 2015, decidi pedalar todos os brevets do ARSP em 2015, com a meta de pedalar 30 horas por mês e incluir nestas horas um treino de mais de 5 horas por mês. Com este foco acabei treinando entre rolo e estrada uns 5000 km até completar o Super Randonneur 2015, obrigatório para qualificar para o PBP. Não realizei nenhum treino acima de 70 km, fora dos brevets em que participei.

Sentindo aos poucos a volta da antiga forma, já mais confiante, acabei fazendo a minha inscrição na categoria 84h na primeira oportunidade em 10 de maio. Em um certo momento, achei que o BRM 600 do ARSP era um pouco tarde, e cogitei brevetar os 600 com Randonneurs Mogi, mas aparecendo um conflito de datas com o BRM 400 do ARSP, acabei voltando para o programa original. Finalmente qualifiquei para Paris com o BRM 600 de Holambra, no final de junho, no inverno de São Paulo, em um percurso de 7.400 m de altimetria e algumas variações de temperatura, que consegui terminar firme, sem fazer um tempo sensacional.

Em julho, como sempre faço fiz o meu check up médico anual, que mostrou valores ótimos, sob tudo, o resultado de hematócritos de 46, o que me confirmou o meu bem estar e a sensação de boa forma.

Fiquei na dúvida de qual bicicleta levar, mas pensando que precisaria de uma bicicleta um pouco mais nervosa acabei levando a minha Reynolds 953, com marchas 50 x 33 e cassete 13 x 30, com a bolsa jumbo protótipo da “Vô Joaquina”, tudo testado no último BRM 200 de Brotas, um brevet relativamente montanhoso que pedalei em um pouco mais de 10 horas.

Tínhamos formado um pequeno grupo PBP (Grupo Hotel Gatines) no nosso hotelzinho em Plaisir com uns 10 ciclistas, todos inscritos no PBP 2015, com um sistema de troca de informações, para preparar todos da melhor forma possível para a prova. A idéia era ter a todo mundo do grupo a partir do 12 de agosto em Paris, para se aclimatar e fazer os últimos preparativos.

Acabei levando para todos material, pneus, chamois e algumas bermudas, o básico para evitar problemas durante o evento.

Conforme o meu planejamento, viajei para Suiça no dia 5 de agosto, e no dia 8 de agosto para França para casa dos meus pais na Borgonha, onde fiquei treinando alguns dias, dormindo bastante, para chegar bem descansado em Paris, e testando o novo dínamo e luz instalados na bicicleta que ia usar durante a prova.

Comecei a observar a meteorologia, que previa bom tempo pelo menos para o inicio da prova. Tudo na esperança de pelo menos ter as primeiras 24 horas sem chuva, e todos os prognósticos estavam encaixando neste sentido.

Cheguei em Paris no dia 12 de agosto, depois de uma curta viagem de 400 km de Branges na Borgonha até Plaisir ao sul de Paris. A recepção do pessoal do hotel Pavillon des Gatines foi calorosa, a fim das contas, já era a terceira vez que me hospedava no lugar. Apareceram as lembranças e as risadas. Conforme combinado, conseguimos para quase todo mundo um quarto térreo.

Já tinham chegado Edison Dunga, Paulo Gouveia e Silvia Oliveira, e no dia iam chegar Nicolau Trevisan, Rafles Cabral e Roberto Avellar.

Depois percebemos que tínhamos mais brasileiros no hotel entre outros Hamilton Dinarte, Andréia Fiqueiredo Malafaia e mais um grupo de gaúchos, dos que não me lembro o nome.

Encontrei também os primeiros canadenses, que costumeiramente se hospedam neste hotel durante o PBP, entre outros Wim Kok, Willie Fast, no quarto ao lado, e Ross Nichol, que já conhecia de 2011. Ross inclusive foi jantar uma vez com a gente. Pessoa muito agradável e calma. Na conversa durante o jantar descobrimos que é nativo da África do Sul, e somente como adulto migrou para o Canadá. Com 64 anos, desta vez participou pela 5ª vez no PBP. Decidiu, porque ia para uma cicloviagem com a esposa após a prova, usar uma bicicleta compacta estilo Brompton e participar na categoria 90 horas. A filosofia dele: “You want to have a good time, or you want to make time”. Em português: Você quer passear e se divertir? Ou quer fazer um bom tempo?

Este é provavelmente o conflito de muitos randonneurs, quero ser rápido, ou aproveitar ao máximo a prova. Cada um de nós tem o seu desafio pessoal. Pessoalmente sentia que estava 4 anos mais velho e estava um pouco preocupado em como o meu corpo ia digerir o esforço continuo de muitas horas. Assim mesmo, pensando em praticidade, para evitar filas, fiz outra vez a inscrição na categoria 84h. Coloquei como meta pedalar a prova em 80h, seguindo a mesma planilha que tinha feito em 2011. A diferença de 2011 é que desta vez teria a companhia de vários brasileiros no mesmo grupo de largada, Silvia Oliveira, Caetano Barreira, Rodrigo Carneiro, e alguns outros, que não conhecia.

O dia 14, já com o grupo completo, fui mostrar o caminho para a largada para a nossa turma. Saímos todos juntos de bicicleta, e pelas ciclovias e o parque pedalamos para o Velodrome, que ficava a uns 10 km do hotel. Saímos depois do café de manhã em um dia ameno e um pouco nublado, e chegamos tranquilamente em 30 minutos.

Neste primeiro dia de pedal, todo mundo ficou surpreso com as ciclovias, o trânsito, a atitude dos motoristas, e o visual, bem diferente do Brasil. O lugar da largada, o Velodrome Nacional, era novo, eu tampouco conhecia, e foi construído para o campeonato mundial de 2015, que tinha acontecido somente 2 meses antes do PBP. O lugar vai além de qualquer expectativa, trata-se de um templo do ciclismo, maravilhoso. No dia da nossa primeira visita não deu para entrar no velódromo, mas o lugar e a estrutura por volta é imponente. Pensar que em 2011 o lugar era um terreno baldio. Depois do Velodrome fomos todos almoçar juntos em Saint Quentin-en-Yvelines e mostrei para todos o antigo lugar de largada, que era o estádio de Droit de l’Homme. Encontrando com Francisco Horta decidimos ainda pedalar até Versailles que ficava perto e visitar a famosa estância de verão dos reis da França.

No dia 15, todo mundo foi para o Velodrome, era o dia da vistoria das bicicletas, entrega do kit da prova, e as 14 horas o encontro dos brasileiros para fazer uma foto. Com 116 brasileiros inscritos as expectativas eram grandes. O dia acabou sendo um dia de encontro e festa. Foi a primeira grande reunião dos participantes. A entrega do meu kit era no dia 16, mas quando entrei na fila no dia 15, tanto na vistoria da bicicleta como na entrega do kit ninguém perguntou pelo agendamento, quem aparecia era atendido. Acabei furando fila. A cena era simplesmente linda dentro do velódromo. Um ambiente muito colorido, com bandeiras, a entrega do material da prova, a entrega dos brindes, estandes de apresentadores de outros LRMs, alguns fabricantes de bicicletas e peças, e filas e filas de ciclistas. Todo mundo alegre, paciente e batendo papo.

De volta ao hotel, aquela noite, de repente houve uma grande reunião informal, no quarto 34, bate papo com queijo e vinho. Fiquei emocionado, comecei a falar da prova e mencionei, que não tinha nada de bruxaria no PBP. Que simplesmente tínhamos que aplicar o que já tínhamos aprendido nas provas no Brasil.

O dia 16, foi o dia D para a maior parte dos participantes da nossa turma. Dia da largada para: Paulo Gouveia, Paulo Lowenthal, Emerson dos Santos, Nicolau Trevisan, Roberto Avellar, Rafles Cabral. Todos pedalaram para largada, conforme o mantra de Rafles, “o Brasil em movimento”. E tiveram sorte, era um dia ensolarado, mas com temperaturas amenas. Sem a preocupante chuva. Silvia também foi para a largada, mas eu preferi ficar descansando no hotel.

Essa noite, o dia antes da nossa largada, acabamos indo jantar cedo na Trattoria e fomos para cama cedo. Combinamos com os nossos vizinhos Wim Kok e Willie Fast do Canadá de ir juntos para a largada junto com Ivan Rolim, que estava em um hotel ao lado. Íamos sair do hotel as 4h00 para chegar por volta das 4h30 no Velodrome. O nosso café de manhã seriam as compras feitas no supermercado com bastante pão e queijo.

Consegui dormir bem, mas como usual, antes da prova, acordei antes do tempo. Por volta das 3h00 da manhã já estava de pé, tomando banho, me vestindo, etc. As 4h00 pontualmente saímos do hotel, e como previsto o parque por onde passava a rota mais curta estava fechado. Continuamos pela rota alternativa pela avenida principal, onde encontramos um ciclista, não me lembro de qual nacionalidade, que nos levou por diversas ciclovias, e um monte de desvios passando por uma estação ferroviária finalmente até o Velodrome. Tudo em um pique que ficava difícil acompanhar. Um pouco antes do Velodrome perdi de vista a Sílvia, mas ela acabou nos encontrando.

Chegando no Velodrome os voluntários nos direcionavam para o lugar do agrupamento antes da largada, conforme o grupo, no nosso caso o X. Deu tudo certo, e encontramos na largada também os outros brasileiros inscritos nas 84h , Caetano Barreira, Rodrigo Carneiro, Ronildo Ferreira da Silva e Moises Marcus Retka. O bate papo antes da largada foi tranquilo e calmo, e finalmente largamos pontualmente as 5h00.

Coloquei o GPS a funcionar, não tinha colocado o percurso porque ia seguir as setas que marcam o caminho. A temperatura era 15 graus. Larguei com segunda pele, corta vento e joelheiras, mas sem manguitos e nem cobertura de sapatilha. Estava seco e não sentia frio.

A saída de Paris foi tranquila em um bom ritmo, sempre entre 21 a 25 km/h. Caetano, Silvia, Rodrigo e eu ficamos agrupados. O pelotão se movimentava firme sem grandes mudanças de ritmo. Nesta categoria 84h, os ciclistas tem, em geral, mais experiência e sabem como se comportar em grupo.

Ai percebi que Silvia estava sem luz atrás, avisei e tentei fazer funcionar pedalando, mas não somente não consegui, mas também derrubei a bandeira brasileira que ela tinha colocado no bagageiro. Parei, peguei a bandeira e acabamos encostando em um canteiro central para colocar as coisas em ordem.

A primeira etapa do percurso foi sem muita história, percebi que a média ia aumentando constantemente, de inicialmente uns 21 km/h nos primeiros km, para 23 e continuava aumentando sem muito esforço. O percurso, que não era muito sinuoso, com algumas partes retas e um pouco mais de descida estava ajudando bem. O pelotão foi se desfazendo e, em um certo momento, ficamos somente Caetano, Rodrigo, Silva e eu juntos, com alguns franceses.

Pedalando ainda no escuro, de repente ouço Caetano falando: “Agora peguei a roda certa, a do Richard, este é profissional!” Senti que estava tirando sarro. Não me lembro de ter dado resposta, mas achei divertido. Mais tarde, depois de uns 40 km, Silvia pedalando ao meu lado, perguntei: “Comeu?”, sem resposta, pelo menos não ouvi, “Está no seu ritmo?”, tampouco ouvi resposta. Somente me lembro, que de repente não estava mais ao meu lado.

Um pouco mais na frente, Caetano deu uma acelerada, e em uma subida alcancei ele, ai me fala “Silvia ficou para trás”. Ai respondi laconicamente “A prova é longa!”

Continuei, os km foram passando, começou a clarear, e de repente me encontro em um “grupetto” com uns 3 franceses, nos revezando. Tudo acontecia automático. Um estava na frente, e depois de um tempo era substituído por outro. Eu também fazia a minha parte no vento. Tudo acontecia sem uma palavra. Todos sabiam o que tinham que fazer. Olhando para o GPS, a média continuava aumentando, agora já era 25 km/h. Assim como o grupo se formou, uns 20 km depois se desfez. Um parou para fazer xixi, outro para comer alguma coisa…

Um pouco depois, calculo uns 55 a 60 km, começaram a aparecer uns “grupettos” e as vezes verdadeiros pelotões mais velozes, de grupos que largaram mais tarde, os grupos Y e Z, todos me passaram a alta velocidade. Não tentei acompanhar nenhum, porque não era o meu ritmo.

Em Tremblay-le-Viconte, após um pouco menos de 70 km, parei rapidamente ao lado de um balde de lixo para comer um gel, bebi um pouco de água, e uns 3 minutos depois estava outra vez a caminho. Não era hora de perder tempo. Continuei sozinho, até que um pouco após de Longy-au-Perche, após 120 km, vendo uns ciclistas no bar do vilarejo me deu vontade de fazer xixi. Após do vilarejo achei uns bambus, encostei, e aproveitei para comer mais um gel.

Alguns km antes de Mortigny começaram as subidas, pelos bosques, mas nada longo nem íngreme. Achei-me em um grupo maior que subia bem, e acompanhei o ritmo. Era um pouco veloz, mas conseguia manter. Desta forma, ultrapassando e sendo ultrapassado acabei chegando em Mortagne au Perche por volta das 10h25. Olhando para o GPS a média pedalada foi de um pouco mais de 26 km/h.

Como era PA, fui imediatamente para o refeitório para comer e reabastecer a água. Sem filas, pedi uma sopa, uma porção de arroz branco, uma Coca, uma maça e água. Misturei o arroz na sopa de verduras, que estava bem quente, fazendo uma espécie de sopão, e passei para minha dieta semi-líquida, que seguiria durante toda a prova.

Depois de ir ao banheiro para colocar um pouco mais de Chamois, decidi partir. Ai encontrei com a Silvia que acabava de chegar. Um pouco mais tarde encontrei o Caetano que estava buscando a Silvia. Falei para ele que acabava de ver ela, e achava que estava no refeitório. Olhando para a temperatura, uns 13 graus, algumas nuvens por volta escuras e ameaçadoras, achei bom colocar o meu manguito mais leve, outra segunda pele, e fui embora. O total da parada foi de 35 minutos.

O segundo trecho, é um pouco mais montanhoso, mas sem grandes dificuldades. Os ciclistas estavam já um pouco mais espaçados, mas sempre encontrava com algum grupo e em geral ultrapassava-os. Dava a sensação que quase todos tinham feito a primeira etapa rápido demais e agora precisavam descansar. Pensei“Cansados já na segunda etapa?”

O dia foi ficando nublado, e conforme fui avançando, era uma questão de tempo que começasse a chover. Assim, foi, quando caíram as primeiras gotas, parei rápido em Souge le Ganelon em uma parada de ônibus, para colocar a cobertura de sapatilha e comer um gel. Imediatamente depois choveu bem, até chegar em Villaine-la-Juhel. Temperatura pelo GPS 12 graus.

Villaine-la-Juhel é um lugar maior, e provavelmente o PC mais animado e pitoresco do PBP com uma boa estrutura. Cheguei um pouco depois das 13 horas e fui imediatamente para o controle para pegar o meu carimbo. Depois, como sempre, fui para o refeitório comprar a minha comida padrão, sopa, mas esta vez não achei arroz, então comprei macarrão. Imediatamente depois de pagar a comida, como usual em Villaine, uma criança do lugar se oferece a levar a sua comida para o refeitório e achar um lugar para você. Uma idéia original, crianças não somente atenciosas, mas lindas e curiosas, que ajudam muito a manter um bom astral.

Acabando de comer segui a minha rotina padrão e depois de um pouco mais de 42 minutos sai pedalando, sem chuva, com os aplausos da multidão presente, me encorajando, para Fougères o PC do Castelo.

Nesta etapa tive uma pequena surpresa, pedalando em plena tarde, me deu sono, não que os olhos fechassem, mas os meus olhos começaram como a girar abertos e tinha que me concentrar para focar as imagens da estrada. Durou somente uns minutos, mas me toquei, que teria que começar a fazer power naps após a refeição do meio dia.

Também esta, é uma etapa mais fácil com umas paisagens muito bonitas, como em Ambrières-les-Vallées, onde depois de passar por uma ponte vem uma subida com umas mansões no alto lindíssimas, visual digno para um cartão postal.

Não parei nenhuma vez a caminho, somente bebi água, e consegui uma média bem boa acima dos 24 km/h. Cheguei em Fougéres um pouco depois das 18 horas, segui a minha rotina padrão e fui embora 30 minutos depois para a etapa mais curta do PBP para Tinteniac.

Cheguei em Tinteniac um pouco depois das 21 horas, fiz uma parada rápida de 30 minutos e continuei para Loudeac, que sabia, seria montanhoso e longo. Tinha me colocado como meta chegar em Loudeac entre 3 e 4 da madrugada e dormir pela primeira vez.

Bom, nesta etapa, fiz a minha maior gafe da prova. Errei o caminho. Sempre falei para todo mundo, que este era psicologicamente um dos maiores erros que se pode fazer como randonneur. Esta vez o novato fui eu mesmo.

Fato é que pedalando de noite, perto de Saint Méen le Grand, após um pouco mais de 30 km da etapa o percurso desvia para o sudoeste, eu não vi uma seta indicando a rota. Tinha naquele momento um ciclista na minha frente a uns 200 m, que também errou, mas como vi ele indo enfrente, achei que estava tudo certo, e neste momento, não prestei mais atenção para as indicações da estrada. Ultrapassei ele um pouco mais tarde, por ele estar indo bem mais devagar, achando que estava tudo certo. Continuei pedalando firme, até me achar muito sozinho, e não vendo mais nenhuma seta indicadora do percurso. Ai caiu a ficha, percebi que estava pedalando na direção errada, como não tinha colocado a rota no GPS, decidi voltar para a última rotatória onde tinha ultrapassado o outro ciclista. Chegando na rotatória, não achei uma alma na rua. Acabei parando um carro e perguntei, qual era o caminho para Loudeac. A motorista me mostrou a direção e me falou para seguir as placas “Centre Ville”, agradeci e segui as instruções. Mas em um certo momento fiquei na dúvida, e por sorte achei uma casa com luz, onde uns adolescentes estavam fazendo uma festa. Toquei na porta e apareceram uns adolescentes alegres, mas surpresos. Expliquei, que estava perdido e procurando a rota do PBP. Imediatamente um deles se prontificou a ajudar. Pelo que senti, não era o mais inteligente, e os outros riam dele. O rapaz foi buscar a bicicleta e pedalou comigo até me deixar no caminho certo. Esta foi outra vez uma linda cena de generosidade e hospitalidade por parte da população. Vendo as primeiras setas do percurso vi que estava na rota outra vez, agradeci muito o rapaz, me despedi e fui em frente.

Calculo que esta piada me fez pedalar uns 18 km a mais, o total mostrado pelos GPS para a etapa foi 102 km, e perdi, até achar o caminho, entre uma hora e 15 até uma hora e meia. Por sorte, a temperatura não chegou a cair muito nestas etapa, o mínimo no GPS foram 11 graus. Não senti frio.

Um pouco mais tarde, sentindo um pouco de sono, vi uma padaria aberta em Meneac com 2 ciclistas sentados dentro. Parei, entrei e perguntei para o padeiro se estava servindo café. Falou que sim, me deu um café e sentei na mesa dos ciclistas. Pelas bermudas percebi que era um casal de mexicanos, pela letra e os números estavam na categoria 90h e bem atrasados. Falei com eles em espanhol, e perguntei como estavam as coisas e me responderam que estavam com muito sono e desistindo. Batendo papo, a porta da padaria abriu mais uma vez, e entrou mais um ciclista de cabelo branco, relativamente baixo e magro. Ele pediu um café e um doce e sentou. Nos ouvindo falar em espanhol entrou na conversa. Era um espanhol, a mexicana perguntou para ele, que se era a primeira vez que participava. O espanhol respondeu, que era seu 11º PBP, e que tinha completado todos. Estava na categoria 84h, comentou que esta vez não estava com muito tempo de reserva, que teria que pedalar um pouco mais de tempo e dormir menos, mas que de qualquer jeito em uma prova como PBP a primeira noite, ou as primeiras 40 horas não se dormia. Entendi o nome dele errado mas captei que era o representante ACP da Espanha.

Depois da prova fui dar uma olhada nas estatísticas oficiais do PBP, o ciclista espanhol se chama Francesc Porta Torras, Catalán, terá hoje uns 70 anos e participa a 40 anos no PBP. Em 2011 completou o décimo PBP. Na estatística encontra-se no topo da lista como único estrangeiro na frente de um monte de franceses. Atualizando a estatística, terminou o PBP 2015 em 82h55.

Don Francesc e eu nos despedimos dos mexicanos, desejando boa sorte, e saímos pedalando juntos, até que em uma subida ele foi um pouco mais devagar e deixei ele para atrás (puxa ele tem 70 anos ou mais!….)

Cheguei em Loudeac as 4h53. Uma hora e meia depois da minha previsão. Depois de carimbar o passaporte fui dormir imediatamente sem nem tirar a roupa, pedindo para me acordar as 7 horas. Acordei antes da hora, levantei e fui direto para o café de manhã, e por volta das 7h30 estava a caminho para Carhaix.

A Etapa 6 Loudeac-Carhaix é provavelmente a etapa mais difícil com várias subidas e descidas. Mas estava descansado e o dia ensolarado, era um novo dia, e depois do episodio da noite anterior, somente podia ficar melhor. Tinha saído de Loudeac uns minutos antes de fechar o PC, mas não estava preocupado. Já em etapas anteriores tinha cruzado com ciclistas da prova do grupo 80h, letras A,B,C,D. Mas nesta etapa começamos a cruzar com a categoria 90h, bem mais numerosa, pedalando de volta para Paris. Assim, no caminho, em uma subida achei ter reconhecido a Roberto Avellar e mais tarde a Raniel Lima, já na volta de Brest. Roberto parecia me ter visto, mas acho que Raniel não me viu.

Em Saint Nicolas de Pelem tive uma parada inesperada, por tratar-se de um PC secreto, tive que carimbar o passaporte. Aproveitei para comer mais uma sopa com arroz. Em vista do grau de dificuldade da etapa, a média de 19,3 km/h foi condizente com a dificuldade. Sem dificuldades, cheguei em Carhaix um pouco antes do meio dia, pronto para o almoço. Parei 35 minutos e parti para Brest.

Provavelmente a etapa de Brest é a mais espetacular de todas. Primeiro tem que subir outra vez as montanhas, com a subida mais longa do PBP até Roc Trevezel, e depois tem a descida igualmente longa para Brest com a vista para o mar. Estando perto de terminar a primeira metade do percurso levanta bem o astral, e no meu caso, na categoria 84h, caso tenha dormindo uma vez, vai chegar de dia em Brest. No começo da descida, com um bom sol, dei uma paradinha para desfrutar a linda vista e tomar um gel. Na descida o percurso passa em Sizun, onde tinha um monte de ciclistas parados nos bares na avenida principal. Acabei vendo Jorge Rovetto para quem dei um oi e continuei pedalando. No acesso de Brest passei pela famosa ponte estaiada, que sempre acaba sendo um marco na prova.Devido a subida longa até o topo da etapa Roc Trevezel a média de velocidade não fica muito alta, e a descida para o mar é relativamente plana, com um parte urbana em Brest longa com algumas subidas. Apesar disso, consegui uma média de 20,6 km, que acho realista, apesar de que o meu GPS deu uma parada no meio, devido a mal contato.

Cheguei em Brest por volta das 16h30 para uma parada mais longa, tomar banho e trocar de roupa. No caminho para carimbar o passaporte encontrei Tamara Lauermann, de Santa Cruz do Sul, sentada na grama na frente do PC. Perguntei como ela estava, parecia alegre, mas já estava meio atrasada, comentou: “Pelo menos esta vez estou na categoria certa”.

As duchas estavam em uma escola ao lado do PC e apesar de ter que caminhar um pouco, foi um dos melhores banhos que já tomei no PBP. Duchas individuais, lugar limpo, água quentinha, toalhas enormes para se secar….. Aproveitei para trocar a bermuda e me preparar bem para a volta, continuei com 2 segundas peles, coloquei o manguito mais grosso e pernitos. Isto, porque pela minha experiência, quando estou mais cansado sinto mais o frio. Apesar disso, pensando na subida para Roc Trevezel mantive a segunda pele e tirei o corta vento. A parada foi de 55 minutos.

Sai de Brest quase as 18 horas, estava me sentindo bem e imediatamente percebi o vento a favor. Ótimo, que o tempo estava se comportando como esperado. Toda a volta o vento ficou a favor. Sair de Brest é um saco, a rota da volta é diferente e tem algumas subidas, o avanço até sair da cidade acaba sendo lento. Mas depois a rota fica bem mais interessante, Sizun, após um pouco mais de 40 km continuava bonita e no sol, e os bares continuavam cheios de ciclistas. Passei batido e encarei a subida para Roc Trevezel, subida longa mas não íngreme. Ai me alcançou um francês com uma pequena mochila nas costas, que já me tinha passado várias vezes, mas por parar também inúmeras vezes, eu sempre voltava a ultrapassá-lo. Fui atrás dele e percebi que estava subindo a uns 18 km/h, sempre com marcha reduzida e girando rápido. Comecei a imitá-lo e percebi que funcionava muito bem, conseguia manter o mesmo ritmo e me sentia muito bem. Como ele parou mais uma vez segui sozinho, e segui subindo entre 16 e 18 km/h até o topo Roc Trevezel onde parei em uns carros onde estavam oferecendo café e biscoitos.

Para minha surpresa, parei no mesmo lugar que a última vez, era o mesmo francês, Jean, de Morlaix, de quatro anos atrás em 2011, e que ainda se lembrava de mim. Falou-me que era fácil, um suíço que mora no Brasil, disso ele se lembraria sempre. Rimos, trocamos algumas palavras, agradeci, ficamos de nos ver daqui a 4 anos e fui embora. Agora, tenho um compromisso, vou ter que voltar em 2019!

Continuei a etapa descendo em direção Carhaix e de repente me ultrapassou uma tandem francesa. Era um casal e estavam a mil. Aproveitei, já estava escurecendo, o ritmo estava bom, encostei imediatamente e fui junto. Acompanhei eles por alguns km e observei a movimentação deles. Era simplesmente lindo de ver. Pedalada completamente coordenada, saiam do selim juntos, voltavam a sentar juntos. Troca de marcha, redução de ritmo, aumento de ritmo. Com certeza existem sinais e troca de informação, mas para mim era telepatia. Antes da prova tinha olhado para a lista de inscritos, 100 tandems, 10 na nossa categoria das 84h. Lindas máquinas!

Acabei chegando em Carhaix, km 703, as 22h15 , já no escuro, fiz uma parada de 45 minutos. Encontrei com Andréia Figueiredo Malafaia, a mineira que mora em Brasília, ela estava bem, mas bem atrasada. Depois de comer me deu sono e decidi fazer o meu power nap. Pedi para Andréia me acordar, mencionando “que como estava atrasada, ela já estava fora da prova”. As vezes a gente fala sem pensar. Andréia me cobrou depois da prova. Foi gentil e me acordou no horário. Fui rápido ao banheiro e quando voltei ela não estava mais no lugar. Me sobrou um pouco de água, e perguntei aos ciclistas na mesa vizinha se precisavam de água. Ai um levanta a mão e diz que pode ser e descubro que se trata do John, um Americano de Nevada com quem pedalei no LEL em 2013. Rimos, nos cumprimentamos, ele estava bem, nos despedimos, e fui embora para Loudeac, com meta de chegar entre 3 a 4 da manhã e dormir pela segunda vez. Esta etapa é, bem sinuosa, com muitas subidas e descidas. Tinha um pouco de neblina no inicio mas dissipou depois de alguns km. Cruzei com bastantes ciclistas no caminho, pelo que observei, alguns eram das 90h, bem atrasados. Os grupos se formavam muito rápido, mas devido ao cansaço evidente, se desfaziam igualmente rápido. No relevo pareciam sanfonas, que se esticavam e encolhiam conforme a música.

Chegando em um vilarejo, após 10 km de percurso, Mäel-Carhaix , apareceu um voluntario e nos direcionou para um prédio, um PC secreto. Carimbei o passaporte, comi um gel e fui embora.

Depois de Saint Martin de Prés, após aproximadamente 60 km na etapa, tem uma descida bem longa. Entrei na descida junto com um monte de ciclistas atrás de uma tandem. Tratava-se do mesmo casal francês, que tinha encontrado no caminho para Carhaix. Depois de poucos metros de descida íngreme, de repente a tandem freou forte. Eram freios a disco, e acho que deu para ouvir o chiado a kms. Todo mundo arrepiou, eu inclusive. Mas então percebi, que a luz dele era tão fraca, que não enxergava nada. Fui para frente, me coloquei atrás da tandem, e ascendi a minha luz chinesa a potencia máxima. Dava para enxergar “kms”, assim iluminei toda a estrada para ele. Ele percebeu e me deixou passar. Desta forma, com todo mundo atrás de mim, descemos o morro seguros a maior velocidade. Esta foi uma pequena retribuição para a tandem pela ajuda na etapa anterior. Nosso “grupetto” chegou salvo em Loudeac, km 782 por volta das 4 da manhã.

Como a primeira vez, fui direto para o dormitório e pedi para me acordar as 6h30. Mais uma vez, acordei antes, levantei e fui para a minha rotina. Colocando chamois percebi que estava um pouco assado. Nada que não desse para resolver. Olhando para atrás, provavelmente o erro aconteceu em Brest depois da ducha, quando troquei a bermuda e tinha a pele sensível. Deveria ter deixado o Cicalfate e o Chamois assentar um pouco mais antes de sair pedalando.

Quase pronto para partir, encontrei com a Silvia, ela acabava de chegar e parecia animada. Eu estava muito compenetrado com a minha partida, e acho que estava um pouco ausente, nem perguntei para ela se estava bem, e precisava de alguma coisa. Espero que ela não tenha tomado a mal.

Parti para Tinteniac um pouco depois das 7 da manhã. Sabia que as próximas duas etapas seriam mais planas e dava para aumentar a reserva de tempo. Tinha na cabeça que era a etapa curta de 55 km. Fui pedalando até perceber, que era a mais longa das duas, 85 km. Estava sem fome, pedalando muito bem e não sentindo nenhuma dificuldade, decidi continuar sem parar. A caminho somente bebi água. Cheguei em Tinteniac, km 867, as 10h44 com uma média de mais de 23 km/h. Perfeito.

Por não ter parado a caminho de Tinteniac, fiquei 45 minutos no PC e parti para Fougéres, a etapa curta de 55 km. Sem parada, cheguei em Fougéres, km 921, quase as 14 horas e estacionando a bicicleta me encontro com Paulo Gouveia dormindo na grama. Fui carimbar o passaporte e comer a minha sopa com arroz e voltando, ele continuava dormindo na grama. Acordei ele, perguntei como estava de tempo, simplesmente me respondeu que estava com sono se virou e continuou descansando. Achei boa a idéia, sentei e encostei na arvore ao lado e fiz um power nap de 20 minutos sentado. Acordei 5 minutos atrasado, Paulo continuava descansando, e fui embora. Total parei 1 hora.

Sentindo-me descansado, parti por volta das 15 horas para Villaine-la-Juhel, uma etapa mais montanhosa de 89 km. Após uns 30 km percebi que o GPS tinha parado de funcionar. Tinha percebido um mal contato anteriormente, mas achei que era a trepidação do asfalto e não me toquei. Achei chato, e sabendo que tinha mais um cabo usb decidi parar em uma barraquinha na beira da estrada em Saint Berthevin-la-Tanniere para trocar o cabo. Troquei o cabo, o GPS voltou a funcionar, bebi um café, comi um biscoito, agradeci, deixei uma caixinha para o dono da barraca e voltei a pedalar. Nesta fase, apesar de estar bem de tempo, já estava na minha cabeça, terminar a prova. Não existia mais outro foco. Para as pessoas por volta parecia um computador no automático. Com certeza bem chato.

Pensando no relevo da etapa, a média foi alta, incluindo os km no trecho plano não computados pelo GPS, calculo 15 km, com certeza fiquei acima dos 22 km/h. Senti um pouco a subida mais longa antes de Villaine-la-Juhel, mas mantive os meus 10 km/h constantes até o topo. Nada como manter o giro com marchas reduzidas (33×30). Cheguei no PC em Villaine as 19 horas, ainda com luz. Vendo a multidão torcendo, me voltei a sentir um pouco mais humano. Depois do carimbo fui para o refeitório, e vendo as crianças me ajudando com a bandeja voltei a sorrir.

Demorei uma hora para ir embora do PC, mas tive que ir ao WC. Em Villaine tinha banheiros químicos e pela minha experiência este tipo de banheiro, pelo menos no Brasil, fede horrivelmente. Bom, acabei tendo que usar um. Para minha surpresa, este foi o WC mais limpo que encontrei em todo o PBP. Tinha uma descarga muito boa e estava, pelo menos visualmente, limpíssimo.

Parti de Villaine para Mortigny as 20h15 ainda de dia para esta etapa dura, com muito sobe e desce. O meu ritmo estava bom, mas depois de um pouco mais de 40 km cansei. Parei em Saint-Remy-du-Val na praça, onde tinha um boteco aberto com um monte de ciclistas, mas não estava com vontade de comprar nada. Comi um gel, bebi uma água e simplesmente fiquei sentado descansando em uma cadeira que achei. Após 20 minutos fui embora.

O descanso foi muito bom, e apesar do percurso trincado peguei o ritmo outra vez e consegui chegar em Mortigny-au-Perche, km 1090, as 0h30 da manhã. Depois do carimbo, não pensei muito, pedi uma cama e fui dormir, pedindo para me acordar as 3 da manhã. Também esta última vez acordei sozinho. Fiz a minha rotina e fui embora um pouco antes das 4 da manhã.

A primeira parte desta penúltima etapa tem algumas subidas e descidas não muito longas, até aproximadamente o km 30. Depois a etapa é quase toda uma leve descida até Dreux. Parti e logo me encontrei circulando entre numerosos grupos de ciclistas indo para Paris. Definitivamente estava no meio da categoria 90h. Ainda assim, dava para ver e sentir os grupos mais velozes e os mais lentos. Consegui então identificar um pequeno grupo de 3 franceses, que me alcançaram e ultrapassaram, mas pareciam ter um ritmo parecido ao meu. Colei neles e fiquei quieto. Um deles, que parecia o mais forte ficava puxando os outros dois, era magro e atlético e pedalava em uma cadência mais baixa, mas com um pedal bem redondo. A bicicleta dele não tinha nem bolsa de selim. O segundo estava sentado torto em cima do selim, e parecia com problemas nas costas ou na bunda, tinha bolsa de selim, mas pedalava leve. O terceiro, parecia levar o equipamento dos 3, tinha alforjes e sempre pedalava por último. Continuei pedalando atrás deles, até que em uma subida quase os perdi. Fiz um esforço, voltei a alcançá-los e fiquei atrás “sanguessuga”.

Passaram as subidas e apareceram as partes mais planas em leve descida, então a velocidade aumentou. Tinha pego o ritmo, me sentia muito bem, e vi pelo GPS, que a velocidade aumentou para acima de 30 km/h. Seguimos na cadência pelo menos uns 20 km e fomos ultrapassando inúmeros ciclistas. Após uns 50 km na etapa caiu um pouco a velocidade e o primeiro Francês, que puxava, parecia não se sentir muito bem. De repente apareceu um Norueguês nos ultrapassando a todos, calculo que a uns 35 km/h, e o francês mais forte foi atrás. Os outros 2 franceses titubearam. Não querendo perder o trem, fui imediatamente atrás dos 2 mais rápidos deixando para atrás os mais fracos. Alcancei os dois e fiquei quieto atrás. Em uma instância a velocidade aumentou a 40 km/h mas conseguia acompanhar facilmente. Começou a chover e tanto o Norueguês como o Frances reduziram o ritmo.Então fui para frente para ajudar e mantive uns 32 a 33 km/h, pensando que outros 2 ficariam atrás de mim. Uns km para frente, mantendo sempre a mesma velocidade já com uma chuva aos baldes, olhei para trás. Percebi que não tinha mais ninguém. Amanheceu, não vi mais nenhum do grupo e cheguei sozinho em Dreux por volta das 7 horas. Provavelmente esta foi a minha melhor etapa em toda a prova, média 23,3 km/h.

Cheguei em Dreux, km 1157 km completamente molhado. Peguei todas as roupas secas de reserva que tinha na bolsa da “Vó Joaquina”, continuava tudo seco, e fui carimbar o passaporte. Depois fui no vestiário, troquei todas as roupas molhadas e fui comer.

Tinha muita gente no PC, foi a única vez que peguei uma curta fila. Continuava chovendo, e muitos queriam esperar a chuva parar, o que não estava nos meus planos. 45 minutos depois de chegar no PC estava a caminho na última etapa.

Com a chuva chegou um vento oeste bem forte. Na primeira parte mais plana da etapa não senti muito a mudança, mas avançava sem esforço a uns 22 km/h. Apareceram os trechos com um pouco de subida e falsos planos e percebi que conseguia subir na coroa grande, 50, sem muito esforço, a velocidade sempre entre 17 e 18 km/h. Vendo que estava indo muito bem, me empolguei e continuei em um ritmo forte. Como tinha muitos ciclistas das 90h, acabava ultrapassando muitos participantes bem mais lentos o que me dava mais ímpeto ainda. Após um pouco mais de 30 km, cheguei nas famosas duas subidas mais íngremes de toda a prova, dentro do bosque. Reconheci elas na hora e me preparei para subir na “vovozinha”, 33×30. Senti bem as subidas, mas subi controlando bem a pedalada, no final a velocidade caiu a 9 km/h. No topo, apesar da chuva, tinha torcedores, incentivavam todo mundo e gritavam que agora já somente faltavam 30 km. Dito e feito, no próximo plano acelerei mais uma vez e continuei pedalando forte.

Os km passavam rápido, até que, em uma subida percebi que o meu pneu dianteiro estava ficando sem ar. Fiquei um pouco decepcionado, já que este foi o meu primeiro furo em 3 PBPs, e neste momento somente me faltavam 15 km para chegar. Pedalei até o topo do próximo morro, achei um lugarzinho no asfalto ao lado da estrada e parei. Sorte no azar, naquele momento parou de chover, e o pneu furado era o dianteiro, que é mais fácil de manuseio. Fiz a troca, e estando perto da meta final usei CO2. Não me lembrei que estava tudo molhado, mas quando soltei o CO2, por sorte, coloquei o cilindro encima da luva, onde depois da aplicação grudou completamente. Salvei a pele da minha mão, o cilindro, somente tocou na pele do mindinho da mão esquerda.

Decidi pedalar os últimos 15 km tranquilo, e assim fiz. A rota este ano, chegando em Saint Quentin, perto do Velodrome me pareceu mais simples, que em 2011. Por último atravessamos o meu conhecido “Parque de Loisir”, e cruzei o registro eletrônico no Velodrome as 11h15 da manhã. O Velodrome estava cheio de gente aplaudindo, felizes por cada participante que chegava.

A entrega do passaporte foi dentro do Velodrome, e para minha surpresa a Rosa e Aizen tinham conseguido uma mesa na parte central do Velodrome onde a maior parte dos brasileiros acabaram se encontrando. As primeiras pessoas que vi foram Tatiana, esposa do Paulo Lowenthal, para quem pedi “qualquer” coisa para comer. Gentilmente, ela pegou a comida que tinha levado para Paulo, e me deixou comer. Perguntei por Paulo, e Tatiana me respondeu que estava chegando. O que achei ótimo.

Estava molhado, mas não sentia frio. Começou a aparecer todo mundo me felicitando. Bati um papo com Francisco Horta, que tinha desistido em Brest. Falei para ele que não tive problemas e deu tudo certo. Somente depois dei uma olhada no tempo e percebi que tinha sido mais rápido que em 2011. Encontrei com Smy Oliveira, nos colocaram uma bandeira do Brasil na mão e começaram a nos fotografar. Ai foram aparecendo todos, Rafles Cabral, Aurélio Dos Santos, Marcos Janjacomo, Carlos Reis todos agora “Anciens” (o termo usado para os que terminaram algum PBP).

Em um certo momento fiquei com frio. Como estava todo molhado e com medo de uma resfriado, decidi ir para o hotel, para tomar uma banho quente e dormir um pouco. Assim, pedalei tranquilamente, para o hotel junto com Rafles pelo parque, nosso conhecido caminho. No hotel, peguei a chave tomei um banho e fui dormir.

No fim da tarde, todo mundo já mais descansado, depois de uma boa siesta, saiu dos quartos. Ouvi vozes, me vesti e na frente do quartos, na grama colocamos cadeiras, foram aparecendo todos, e começou o bate papo, todo mundo tendo historias para contar.

Aquela noite, o 21 de agosto, fomos todos, um grupo que deu uma enorme mesa, jantar na Trattoria para comemorar. Para minha surpresa, se lembraram do meu aniversario, que é o 22 de agosto, e me cantaram parabéns. Estavam quase todos ai, Roberto Avellar Jr., Edison X. Dunga, Silvia Oliveira, Andréia Malafaia, Nicolau H. Trevisan, Emerson Akira (gostei do apelido), Rafles Cabral, Paulo Gouveia, inclusive alguns gaúchos, Hamilton Dinarte e outros, de quem não me lembro o nome (me perdoem). Me deixaram escolher o vinho, um Valpolicella, e tivemos Champagne no final e não me deixaram pagar o jantar.

Foi um ambiente verdadeiramente festivo, todo mundo contando as suas experiências e até ficamos um pouco tristes, que a prova tivesse terminado. Acho, que importante foi que todos terminaram com saúde, sem acidentes, e estavam prontos para voltar para casa com um monte de historias para contar.

Para mim, não foi somente mais um PBP, cada um é diferente, deixa lembranças boas, incentivos e saudades. E como é típico do ser humano, ao longo do tempo as lembranças positivas permanecem e as negativas se esquecem ou se ri delas. Estou agora com 62 anos, e como falei várias vezes no nosso “grupinho”, vocês me deixando ir junto e participando me mantém ativo e jovem.

Olhando para o resultado 78h15, 22,1 km/h média pedalada, fiquei muito satisfeito. Acredito que com o meu pedal atual, e a presente estratégia de dormir 3 vezes, conseguiria, em uma situação perfeita, sem erros, sem furos, sem chuva, e o vento na direção certa melhorar para 75h. Caso quisesse ser mais rápido, teria que mudar a estratégia arriscando mais, entrar na categoria 80h, dormir somente 2 ou uma vez e fazer o resto com power naps. A pergunta seria, se mais cansado a minha média de pedal não ficaria mais baixa? … Muitas hipóteses! O que vale é a realidade! Sabendo a teoria, o único segredo é a execução.

Finalizando, gostaria de agradecer em primeiro lugar os meus amados, a minha esposa Fulvia, Lucas o meu filho, e Julia a minha filha, que continuam tolerando o meu fanatismo ciclista, me deixando treinar e ir a todas as provas, enquanto eu roubo um monte de horas deles;

a nosso “grupinho”de Plaisir, com a sua atitude positiva para se arriscar em uma prova como PBP e crescer como randonneurs, cada um deles, tenham completado ou não, Roberto Avellar Jr., Edison X. Dunga, Paulo W. Löwenthal, Rafles Cabral, Emerson Dos Santos Oliveira, Silvia Oliveira, Paulo Gouveia, Nicolau H. Trevisan;

a Ciclo Ravena, que não somente me emprestou a mala bike, mas sempre me deu um tratamento absolutamente VIP de altíssima qualidade;

a Vô Joaquina, que se prontificou a realizar o projeto da bolsa de selim, quando nenhum outro quis se arriscar;

e não posso esquecer, a Rogério Polo que teve o trabalho de corrigir todos os meus erros de ortografia e expressão em Português.

Desejo, muita saúde e sucesso a todos, e nos vemos na nossa próxima aventura, a mais tardar PBP 2019.

Abraços a todos e bom pedal,

Richard

Agradeço aos seguintes fotográfos por me emprestar as suas fotos para este relato:

Aizen Campagnoli, Audax Randonneurs São Paulo, Moacir A. Dammann, Nicolau H. Trevisan, Silvia Oliveira,           Smiling Oliveira, Yutthana Black Subkhet da Thailandia, e a um anónimo fotógrafo russo.

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