Relato – Brevet 400 – Santa Cruz do Sul – 2009 – Richard Dunner

Tinha me colocado na cabeça de participar em um Audax fora do estado de São Paulo, mas devido às obrigações profissionais e pouco tempo a disposição fui postergando.
Este ano, vendo que Luiz Faccin tinha programado o primeiro Audax de 1.000 km no Brasil, olhei para o programa de 2009 e percebi, que não tinha como completar os 400 e 600 km dentro do prazo necessário para qualificar para a grande prova.
O que ainda me assustava, era a longa distancia ate o Rio Grande do Sul. Mas para me incentivar, acabei fazendo a pré-inscrição para os 1.000 km e me inscrevi para os 400 km de Santa Cruz do Sul.
Como iria ao evento ainda não tinha decidido. Finalmente, decidi ir de carro. Nunca tinha viajado para o oeste do estado do Rio Grande do Sul.
Sai de São Paulo quarta feira à tarde e cheguei a Santa Cruz quinta feira, onde fui muito bem acolhido no Hotel Antonio´s. Fiz uma pequena visita a Bicicletas Faccin para ver o Luiz, que não estava, por um imprevisto na família. Giani, irmão de Luiz, me informou do programa do sábado. Voltei ao hotel cedo, e depois de curta janta fui dormir.
Indeciso de que catraca usar, 12-27 ou 11-32, acabei decidindo ir dar uma volta de bicicleta na sexta feira para ter uma noção das condicões da estrada. Preparando a bicicleta sexta de manhã encontrei no estacionamento do hotel com Ester A. Galbinski, simpática, me perguntando se eu também ia participar no Audax. Depois de uma curta conversa, ficamos en ver-nos mais tarde.
Fui de bicicleta ate Bicicletas Faccin, cumprimentei o Luiz, e vendo que a loja estava cheia de clientes, não quis atrapalhar, e fui para o meu treino. Peguei a estrada para Rio Pardo e fiz um pouco mais de 30 km sem forçar.
Depois voltei ao hotel, tomei banho, troquei de roupa e fui ao restaurante Centenário para almoçar. Bebendo o meu café, apareceu outra vez Ester, e acabei sentando com ela batendo papo.
Com a idéia de dormir de tarde, voltei ao hotel. Isto, para chegar descansado para a reunião técnica no Hotel Feldmann as 20:00h. Combinei com Ester, de sair de carro juntos para a reunião, para mostra-lhe o caminho.
A reunião no Hotel Feldman durou ate as 21:00h com jantar no mesmo lugar. Foi muito bom encontrar antigos amigos de Paris como Eric Brack, Luiz Lazary e outros conhecidos de eventos em São Paulo como Mogens Nielsen e Roberto Trevisan. Depois voltei ao Antonio´s para tentar dormir.
Acabei não dormindo quase nada, por estar agitado, e por volta das 02:00h fui para o café de manhã oferecido cortesmente para os participantes do evento pelo Hotel Antonio´s.
Chegando ao Hotel Feldman de carro, todo mundo apareceu pontualmente. A organização estava eficiente e afiada, os participantes passaram pela vistoria, e receberam o passaporte para a prova. As 03:30h pontualmente foi dada à largada.
Largamos e acabou sendo assim, que fiquei junto com Eric Brack em um “grupeto” pedalando para o primeiro PA em Pântano Grande. Era de noite, com a temperatura por volta de 15 graus, e me pareceu que o tempo não somente passava rápido, mas que todos tinham pressa. O meu relógio marcava 5:10h quando chegamos ao PA. Eric e eu paramos, comemos uma misto frio e depois continuamos.
Muitos participantes saíram ao mesmo tempo do PA em direção de Encruzilhada. Embolou, e comecei a ficar para trás nas subidas subseqüentes. O ritmo me parecia alto de mais. Eric me esperava de vez em quando. Expliquei para ele, que não subia muito bem e Eric como bom médico me respondeu, que seria bom que fizesse musculação, que se tratava de falta de musculatura. Respondi, que era uma questão de idade, estava ficando velho e não tinha vontade de fazer exercícios com instrumentos de tortura.
Aos poucos, começou a aparecer à luz do dia. O céu iluminou-se de laranja e vimos que ia dar um belo dia. Assim, continuamos subindo os morros animados em direção de Encruzilhada. Apareceu o sol e um pouco mais tarde, por volta das 7:30h, já tínhamos chegado ao PC tendo percorrido 90 km.
O pessoal do restaurante do posto BR parecia não dar conta, chegava muita gente e todos pediam alguma coisa. Eric e eu pedimos uma torrada e bebemos um café com leite. Abastecemos água e continuamos, sabendo que o próximo PC seria somente na virada após de 202 km. Tínhamos 110 km pela frente com abastecimento precário.
Nos primeiros km contornamos Encruzilhada, com 3 trevos de acesso para a cidade. Mas que trevos! Descida íngreme, depois uma lombada com descida subseqüente e por último subida íngreme ate o trevo de acesso. Os 3 quase idênticos! Para mim, tortura chinesa. Em todos, desci a maior velocidade possível para conseguir subir com embalo a próxima subida. Ainda assim, na subida Eric sempre me deixava para trás. Os primeiros 10 km passaram bem devagar e nem me atrevi a olhar para o relógio.
A estrada começou a ficar mais plana e menos sinuosa. Comecei a achar o meu ritmo e fomos aos poucos alcançando e passando alguns ciclistas mais lentos. O tempo estava muito bom, a paisagem lindíssima, e ficamos batendo papo sob o mundo, a família e …………. Quase sem perceber apareceu no km 130 aquela famosa descida de 4,5 km ate a ponte que atravessava o Rio Camaguá.
Sabíamos que após de aproximadamente 155 km tinha um bar onde poderíamos abastecer água, mas decidimos parar após 140 km, descansar um pouco e beber e comer o que tínhamos. Ficamos uns 15 minutos, e continuamos.
Por volta do km 155 apareceu o bar, onde tinha alguns ciclistas abastecendo. Olhei para Eric, eu tinha suficiente água, e acabamos continuando sem parar. Alcançamos 2 ciclistas que estavam imprimindo um bom ritmo, entre 25 e 28 km por hora e nos juntamos a eles. Progredimos bem, ate que um deles decidiu seguir um pouco mais devagar. Para ajudar, comecei a fazer a minha parte do passo, ate que o segundo ciclista decidiu esperar o seu amigo.
Eric e eu continuamos sozinhos ao mesmo ritmo acelerado. Já estava fazendo mais calor, e de repente Eric ficou para trás. Reduzi a velocidade, e esperei. Ai Eric falou que se estava sentindo fraco e um pouco tonto. Assim, após umas subidas, paramos na sombra, para que pudesse se recuperar. Tínhamos, percorrido 180 km. Dei toda a minha água e o resto de Gatorade.
Depois de dar um tempo, voltamos a andar lentamente encarando os últimos morros antes de chegar ao trevo da BR 392. Deixei o Eric um pouco para trás em uma subida para buscar água. No final da subida, pedi água em uma casa. Os donos foram muito amáveis, e nos forneceram toda a água que precisávamos. Enchemos as caramanholas, bebemos e continuamos a ritmo lento.
Quase no topo do último passo, Eric me falou, que fosse enfrente, que sentia que estava me atrasando. Perguntei, como se sentia, se tinha celular e se tinha os telefones de contato da organização da prova. Senti que tinha todas as informações necessárias, e queria ir mais devagar. De tal forma, continuei sozinho ate o PC Fita Azul na BR 392, aonde cheguei por volta das 13:40h.
Fui almoçar e abasteci. Para minha surpresa, Eric chegou mais rápido do que esperava. Sentou-se à mesa comigo, mas me falou que ia ficar mais um tempo, para se recuperar melhor. Perguntei, se se importava que continuasse sozinho. Depois de trocar a bermuda, larguei do PC as 14:30h tentando cobrir a maior distancia possível ainda de dia. Em uma primeira instancia ir ate o PC3 no km 269 da BR 471, ou 270 km de percurso.
A tarde estava linda, e não fazia muito calor. As paisagens pareciam pintadas. A volta parecia mais fácil, e consegui, depois de dominar “aquela” última subida de 4,5 km + 1, chegar no PC2 as 17:08h. Os voluntários no PC me trataram muito bem, oferecendo cadeira, alimentos, bebidas………….
Tinha alguns outros ciclistas no PC, mas pareciam todos muito ocupados em continuar a prova. Assim, abasteci, coloquei a roupa para o frio e larguei para o PA en Encruzilhada, no km 210 na BR 471, ou 310 km de percurso. Após uns km encontrei um grupo de 3 ciclistas parados, também se preparando para a noite. Mais tarde me alcançaram e passaram. Não conseguia acompanhar o ritmo deles, estavam muito velozes. Aos poucos as luzes vermelhas foram distanciando-se na oscuridão, ate sumir completamente.
A temperatura estava amena, e eu estava sozinho na estrada. Isto contra os meus princípios, já que sempre de noite, por segurança, costumo andar acompanhado. Ainda assim, me sentia bem, os km passavam, tinha poucos veículos e dava para ouvi-los e ve-los de longe, devido às luzes. Quando algum veículo chegava perto, ia para o acostamento.
A estrada parecia um tapete, mas tinha pouca sinalização e ficava difícil se localizar na distancia e no tempo. Continuei a um ritmo tranqüilo, pedindo-me paciência, que o próximo PA já chegaria. Em certo momento, me perguntei, se esta parte do percurso não acabaria nunca. Mas de repente as luzes ficaram mais numerosas, e percebi que estava outra vez perto da civilização. Comecei a esperar os 3 trevos de Encruzilhada, sabendo que depois de cada um viria primeiro uma descida e depois duas subidas.
Finalmente, apareceu aquele “santo” de primeiro trevo, e imediatamente percebi outro participante, que parecia buscar a rota. Gritei para ele, “É por aqui”!”“, Venha!”. Não olhei mais para trás, mas sabia que me tinha visto e continuei o percurso.
Os 3 trevos passaram mais rápido do que pensei, sabia que estava perto do PA e fiquei buscando o posto BR, que com certeza estaria bem iluminado. E quando apareceu … fiquei aliviado. Fui direto ao restaurante onde tinham preparado um buffet. Sentei na mesa, pedi bebida e comi dois pratos cheios de macarrão e arroz com molho de tomate. Como sempre falo nestas ocasiões: “foi a melhor comida que já comi na minha vida”. Imediatamente depois, calculo, que pelas 20:30h, fui embora para o próximo PC. Faltavam uns 90 km.
Sabendo que era descida ate Pântano Grande, me esforcei o menos possível, deixava a bicicleta embalar, pedalando somente quando precisava. Avançava bem com mínimo esforço e o tempo passava rápido. Até que chequei a uma bifurcação indicando Pântano Grande. Fiquei na dúvida e perguntei a um caboclo que passou de bicicleta. Este me confirmou que estava indo na direção correta. Pouco depois, apareceu o acesso para o centro da cidade. Entrei pedalando tranqüilo na cidade e cheguei ao PC as 22:20h.
No PC estavam Ninki e outros voluntários, que me perguntaram, se estava tudo bem. A minha resposta foi afirmativa. Estava completamente focado. Não senti sono em nenhum momento. Também me confirmaram que somente faltavam 49 km ate o Hotel Feldman o que me deixou muito animado. Era por volta das 22:30h. Falei para Ninki, que precisaria de 2:30h para fazer o resto do percurso.
Comi duas maças, enchi as caramanholas de água e fui embora para Sta. Cruz do Sul. Inicialmente a pedalada parecia fácil a pesar das primeiras subidas, estava avançando mais rápido do que pensava. Mas também percebi, que tinha mais veículos circulando, tanto carros como caminhões. Cada vez que um veículo ficava perto ia para o acostamento.
As reações dos motoristas eram diversas. Uns buzinavam agradecendo, outros passavam buzinando a alta velocidade para assustar e pelo menos 2 passaram com a janela aberta me xingando. Neste trecho, o acostamento estava em mal estado e cada ida para o acostamento reduzia bem a velocidade.
O meu único susto, foi quando percebi que estava encima de uma ponte bem comprida sem acostamento perto de Rio Pardo. Provavelmente, aquela ponte que o Luiz Faccin tinha mencionado na reunião técnica. Achei que estava em perigo e acelerei o mais que podia para atravessar a ponte no mínimo tempo possível. Ficava rezando que não aparecesse nenhum caminhão. Acabou dando tudo certo.
Com a meta final perto, sempre enxergando as luzes vermelhas de outros participantes na minha frente, que me mostravam que não estava sozinho no meu esforço, fui contando os km finais: ….placa km 159, ….placa km 149, …somente faltavam 15 km. Quando a placa …. km 139 apareceu, sentí que já estava bem perto.
Assim, cheguei ao Feldman as 00:40h. Entreguei o passaporte para o guarda do hotel e fiquei uns minutos dando voltas no saguão. Tinha participantes na sala de televisão. Um parabenizava ao outro. Mais ciclistas chegavam e se registravam. Somente lembro-me que Roberto Trevisan me falou que tinha sido rápido no último trecho. Fazendo o cálculo, fiz os últimos 49 km em aproximadamente 2:10h. Para mim, nada mal.
Peguei a bicicleta e comecei a desmontá-la para colocá-la no carro. Ai apareceu outra vez uma voluntária para me ajudar, preocupada. Ficamos batendo papo, da prova, do cansaço, da prudência ate que consegui guardar tudo no carro.
Acho que esta última cena foi um bom exemplo do espírito da prova. Todos, organizadores, voluntários, participantes, amigos, parentes, fizeram tudo “e muito mais” para que tudo funcionasse. Foram não somente eficientes, mas solícitos e amáveis. Senti-me muito bem acolhido como estranho no pedaço.
Gostaria de agradecer a todos pela ajuda, simpatia, curiosidade e solidariedade durante a prova e espero poder retribuir alguma vez quando estiverem em São Paulo.

Abraços a todos e bom pedal
Richard

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